Sobras de minha existência ... Uma camiseta sufocada no fundo do guarda-roupa para que nenhuma lembrança respire.Fotos,algumas delas gravadas num dvd antigo sem ter meio de apagá-las sem perder o resto. Estão lá, paralisadas em momentos felizes, tradutoras de uma vida que quase foi, trancadas porque o que quase foi não pode atrapalhar o que ainda pode ser. Talvez um fio de cabelo, o último deles, esteja nesse momento sendo varrido e levado pelo vento forte e solitário...
Antes eu ficava feliz porque eu sabia que ele não sentiria tanto calor para dormir e eu poderia ser abraçada de conchinha o tanto que desejasse. Agora é outra que suspira protegida e ri apaixonada de algum provável barulho que ele faça enquanto dorme, jurando na manhã seguinte que não ronca. Saudade não é ex, tampouco amor. Mas a vida da qual abrimos mão por um sonho (ou por um erro) é passado. E de escolhas e de perdas é feita a nossa história.
Não há nada que se possa fazer a não ser carregar por um tempo um peso sufocante de impotência: eu escolhi que aquele fosse o último abraço. Agora é outra que se perde naqueles ombros largos, tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto aquele abraço é o lado bom da vida. Da vida que te desemprega mesmo depois de tantas noites em claro e de tanta coisa pra resolver. Da vida que te abre uma porta que você jura ser a certa e nem sempre é. Da vida que te confunde tanto que você quer se afastar de tudo para entendê-la de fora. Da vida que te humilha tanto que você quer se ajoelhar numa igreja. Da vida que te emociona tanto que você não quer pensar. Da vida que te dá um tapa na cara pra você acordar e não tem ninguém pra cuidar do machucado e dizer que vai ficar tudo bem. Da vida que te engana.
Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perdê-lo. Se fosse uma comédia-romântica-americana, a gente se encontraria daqui a um tempo e eu diria a ele, que mesmo depois de ter conhecido homens que não gritavam quando eu acendia a luz do quarto, que não reclamavam das minhas músicas melódicas, não amavam os amigos acima de, não enchiam a cara até ficar fedendo a álcool msm depois do banho, não tiravam sarro do meu cabelo ruim, não insistiam em classificar meus pés como seres de outro planeta, era ele que eu amava, era ele quem eu queria. E ele me diria que, mesmo depois de ter conhecido mulheres que conheciam tudo e não entupiam o ralo com cabelos, mulheres que bebiam junto e não reclamavam tanto, não demoravam tanto tempo se arrumando, não tinham uma blusa ridícula verde, não eram gordinhas , não cantavam o tempo td, não tinham medo de aranhas, não reclamavam do ar-condicionado e nem odiavam vegetais, era eu quem ele amava, era eu quem ele queria. Mas a realidade é que não gostamos desses tipos de filme fraco com final feliz, gostamos dos europeus “cult” onde na maioria das vezes as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.